Dados da TTR Data mostram alta de 30% no volume transacionado no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, mesmo com juros ainda elevados.
O mercado brasileiro de fusões e aquisições segue em um dos ciclos mais intensos da última década. Depois de fechar 2025 com cerca de 1.877 transações e um total próximo de US$ 58 bilhões, alta de 7,6% em relação a 2024, o país manteve o ritmo forte logo no início de 2026. Segundo dados da consultoria TTR Data citados pelo Money Report, o primeiro trimestre do ano registrou US$ 15,9 bilhões em operações, crescimento de 30% frente ao mesmo período de 2025, mesmo com uma queda no número total de negócios concluídos. Esse aparente paradoxo, mais dinheiro movimentado em menos transações, é a principal dúvida que ronda o mercado neste momento. Afinal, por que o valor das operações está subindo enquanto a quantidade de negócios cai, e o que isso diz sobre o apetite de investidores por empresas brasileiras em 2026? A resposta ajuda a entender para onde caminha o setor nos próximos meses.
Por que o valor das transações cresce mesmo com menos negócios fechados
De acordo com Alexandre Pierantoni, managing director e head de investment banking para a América Latina e Brasil da consultoria Kroll, o Brasil combina características raras no cenário latino-americano. O executivo destaca que o país reúne profundidade de mercado doméstico e setores de classe mundial, mas também convive com custo de capital elevado e volatilidade cambial, uma combinação que molda o perfil das transações em curso. Diferentemente de outros países da região, que dependem fortemente de capital estrangeiro para movimentar seu mercado de fusões e aquisições, o Brasil se apoia em uma base robusta de compradores estratégicos locais, fundos de private equity nacionais e investidores institucionais domésticos, o que confere mais estabilidade ao setor mesmo em momentos de maior cautela global.
Esse amadurecimento também aparece na forma como as operações são estruturadas. Em vez de um número elevado de transações menores, o mercado passou a concentrar recursos em negócios mais complexos e mais bem avaliados, envolvendo empresas com receita recorrente, margens saudáveis e governança já estruturada. Segundo análise publicada pela Migalhas, a expectativa para 2026 é de retomada mais qualitativa das operações, com compradores e vendedores adotando premissas mais realistas sobre geração de caixa e sinergias. Setores como tecnologia, agronegócio, energia e serviços financeiros aparecem entre os que mais atraem capital institucional global, o que ajuda a explicar por que o valor total das transações cresce mesmo com um número menor de negócios fechados no trimestre.
O papel da tecnologia e da governança na nova fase do mercado
Um dos fatores que mais tem transformado o mercado de fusões e aquisições no Brasil é o uso crescente de inteligência artificial em etapas do processo, da identificação de empresas-alvo até a realização de due diligence. Segundo especialistas ouvidos pela Migalhas, essa automação permite análises mais rápidas e assertivas, o que se torna especialmente relevante em um ambiente regulatório cada vez mais complexo, como o que o Brasil vive durante a implementação da reforma tributária. Além disso, cresce a chamada due diligence multidisciplinar, que passa a incluir aspectos tecnológicos, cibernéticos, trabalhistas e ambientais, refletindo uma preocupação maior com riscos reputacionais que podem comprometer o retorno de uma aquisição após o fechamento do negócio.
Esse novo padrão de exigência também eleva o peso da governança corporativa na hora de fechar negócios. Segundo o sócio-diretor da Zaxo M&A Partners, Jefferson Nesello, o capital voltou a circular no mercado brasileiro, impulsionado pela expectativa de queda da Selic, mas chega com filtros mais rigorosos. Governança ativa, compliance estruturado e previsibilidade financeira passaram a pesar tanto quanto os indicadores de crescimento na hora de definir o valor de uma empresa. O chamado middle market, companhias com faturamento entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões, deve concentrar boa parte das operações ao longo do ano, já que costuma reunir liderança regional consolidada e potencial de consolidação setorial, características cada vez mais valorizadas pelos investidores.
O que esperar para o restante de 2026
Apesar do bom começo de ano, o mercado projeta um segundo semestre mais cauteloso. Isso porque 2026 é ano de eleição presidencial no Brasil, o que historicamente reduz o volume de grandes transações à medida que investidores preferem aguardar maior clareza sobre o cenário político antes de assumir compromissos de longo prazo. Soma-se a isso a realização da Copa do Mundo, que tende a concentrar ainda mais a atenção do mercado nos primeiros meses do ano. Ainda assim, analistas apontam que o movimento de reorganização de portfólios, com empresas vendendo ativos não estratégicos e buscando parceiros para setores específicos, deve continuar, especialmente entre companhias que buscam ganhar escala ou eficiência operacional diante de um ambiente de juros ainda elevados.
O comportamento do mercado de fusões e aquisições em 2026 mostra um Brasil que amadureceu sua forma de negociar, priorizando qualidade em vez de volume. Para empresários que avaliam vender parte do negócio, buscar um sócio estratégico ou se preparar para uma futura aquisição, o recado dos especialistas é claro: governança, previsibilidade financeira e indicadores bem reportados deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos básicos para atrair investidores em um mercado cada vez mais seletivo e tecnicamente exigente.
Fontes: Money Report e Migalhas



