Pesquisa da Amcham Brasil mostra descompasso entre o interesse crescente por IA e o volume de recursos realmente destinado à tecnologia em 2026.
O uso de inteligência artificial nas empresas brasileiras deixou de ser experimento isolado e se tornou prioridade estratégica declarada por boa parte dos executivos do país. Segundo o Panorama 2026, pesquisa conduzida pela Amcham Brasil em parceria com a Humanizadas, a IA aparece como o principal tema na agenda corporativa nacional. Ainda assim, o mesmo levantamento revela um paradoxo que chama atenção de especialistas: o discurso sobre a importância da tecnologia não vem acompanhado, na mesma proporção, de orçamento efetivo para colocá-la em prática. Isso levanta uma pergunta central para quem acompanha o setor: por que tantas empresas brasileiras dizem priorizar inteligência artificial, mas hesitam em direcionar recursos financeiros consistentes para essa transformação, e quais riscos essa hesitação pode representar para a competitividade dos negócios nos próximos anos?
O tamanho do descompasso entre discurso e investimento
De acordo com dados do Panorama 2026 citados pela Amcham Brasil, 77% das empresas brasileiras ainda não alocam orçamentos significativos para iniciativas de inteligência artificial, e 43% delas investem menos de 2% de seus recursos anuais na tecnologia. Para Marcelo Rodrigues, diretor executivo de Inovação e Novos Negócios da Amcham Brasil, esse cenário revela um risco concreto para as empresas que insistem em adiar decisões de investimento. Segundo o executivo, a companhia que não aprender a criar modelos e processos a partir das oportunidades que a IA oferece corre o risco de abrir uma lacuna competitiva difícil de reverter no médio prazo, especialmente à medida que concorrentes, nacionais e internacionais, avançam na adoção prática da tecnologia.
Esse descompasso também aparece quando se olha para o uso de agentes autônomos, sistemas capazes de executar tarefas completas com pouca ou nenhuma intervenção humana. A mesma pesquisa mostra que 83% das empresas brasileiras afirmam utilizar esses agentes apenas em tarefas simples, ou sequer planejam adotá-los até o fim de 2026. Outro dado relevante, levantado por estudo da consultoria IDC, mostra que 72% das companhias no país ainda estão em estágios iniciante ou experimental de adoção de inteligência artificial, o que confirma que a maturidade estratégica segue baixa mesmo em um momento de forte interesse declarado pela tecnologia.
Onde a inteligência artificial já avança de forma concreta
Apesar do descompasso geral, alguns setores da economia brasileira já apresentam avanços mais consistentes. O sistema financeiro nacional está entre os mais avançados do mundo em uso de IA, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, que projeta crescimento do orçamento em inteligência artificial, analytics e big data dos bancos brasileiros de R$ 1,12 bilhão em 2024 para R$ 1,8 bilhão em 2025. Esse avanço se apoia também na infraestrutura criada pelo Open Finance, que já reúne mais de 100 milhões de consentimentos ativos e favorece o uso de modelos de IA para análise de crédito, detecção de fraudes e recomendações financeiras mais personalizadas para o cliente.
Segundo dados do IBGE cruzados com o Cadastro Central de Empresas, cerca de 9 milhões de empresas brasileiras já utilizam inteligência artificial de forma sistemática, e a adoção entre empresas com 100 ou mais funcionários saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. Os investimentos em IA no país devem crescer acima de 30% ao ano em 2026, superando US$ 3,4 bilhões em gastos totais com software, serviços e infraestrutura, segundo projeção da consultoria IDC. Setores como serviços financeiros, e-commerce, agronegócio, saúde e indústria de transformação lideram essa adoção, enquanto as áreas de marketing e atendimento ao cliente concentram o uso mais formal da tecnologia dentro das empresas, cada uma com cerca de 24% de adoção segundo a pesquisa da Amcham.
Os riscos de uma adoção sem governança
Um dos pontos de maior atenção levantados pelo Panorama 2026 é o crescimento do chamado Shadow AI, prática em que profissionais utilizam ferramentas de inteligência artificial no trabalho sem aprovação oficial da empresa. Segundo a pesquisa, 47,4% dos profissionais brasileiros relatam usar esse tipo de ferramenta de forma não autorizada, o que levanta questões sérias de segurança da informação e governança de dados corporativos. Esse comportamento tende a se intensificar justamente nas empresas que ainda não estruturaram uma política clara de uso de IA, criando uma lacuna entre a adoção real da tecnologia no dia a dia dos funcionários e o controle formal que a empresa exerce sobre esses processos.
Diante desse cenário, especialistas recomendam que as empresas tratem a estruturação da inteligência artificial como decisão estratégica, e não apenas como ferramenta a ser adicionada a processos que já existem. Isso inclui desde a criação de políticas internas de uso até a definição clara de quais áreas do negócio devem receber prioridade de investimento. Para as companhias brasileiras, o desafio de 2026 não é mais convencer a liderança da importância da inteligência artificial, algo que a pesquisa da Amcham já demonstra estar consolidado, mas sim transformar esse discurso em orçamento efetivo, capaz de sustentar uma transformação que já é considerada inevitável pela maioria dos executivos do país.
Fontes: Amcham Brasil e Manchete Esportiva



