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Home office isolou o trabalhador do escritório, mas não do risco psicossocial

A promessa inicial do trabalho remoto incluía menos deslocamento, mais autonomia e, para muita gente, melhor qualidade de vida. Parte disso se confirmou. O que poucas empresas anteciparam foi que o modelo também criou uma categoria própria de risco psicossocial, ausente do escritório tradicional, mas já reconhecida pelo Ministério do Trabalho como fator a ser monitorado. Dr. Éverton da Costa Sagiorato, médico do trabalho, descreve esse fenômeno como isolamento social relacionado ao regime de teletrabalho.

Por que isolamento em home office é diferente de simplesmente trabalhar sozinho?

Trabalhar sem interação constante com colegas não é, por si só, prejudicial. O problema surge quando a ausência de convívio informal, aquela conversa de corredor, o almoço em grupo, a troca rápida sobre um problema do dia a dia, se acumula ao longo de meses sem qualquer substituto real. “Isso reduz o senso de pertencimento a uma equipe e pode dificultar a identificação precoce de sinais de sobrecarga que, presencialmente, um colega ou gestor perceberia com mais facilidade”, explica Dr. Éverton da Costa Sagiorato.

Em ambiente presencial, sinais de desgaste costumam ser notados por terceiros antes mesmo que a própria pessoa os reconheça. Em home office, esse tipo de observação informal praticamente desaparece, deixando a identificação do problema dependente quase inteiramente da autopercepção do próprio trabalhador.

A dificuldade extra de fiscalizar risco psicossocial fora do escritório

Avaliar risco psicossocial já é tecnicamente mais complexo que avaliar risco físico. Em regime remoto, segundo o médico do trabalho, essa dificuldade aumenta, porque a empresa tem visibilidade ainda mais limitada sobre a rotina real do funcionário: jornada estendida informalmente, ausência de pausa genuína, e sobreposição entre vida pessoal e trabalho dentro do mesmo espaço físico são fatores difíceis de captar sem depender do relato direto da própria pessoa.

Éverton da Costa Sagiorato
Éverton da Costa Sagiorato

Por que o home office pode aumentar o risco de isolamento social relacionado ao trabalho? Na explicação de Dr. Éverton da Costa Sagiorato, a ausência de convívio presencial reduz o senso de pertencimento a uma equipe e dificulta a identificação de sinais de sobrecarga por terceiros, tornando a percepção do próprio trabalhador o principal, e por vezes único, meio de identificar esse tipo de risco.

Sinais que costumam passar despercebidos no trabalho remoto

Reuniões por vídeo raramente capturam sinais que seriam óbvios presencialmente. Alguém pode parecer engajado durante uma chamada de trinta minutos e estar, na realidade, em um padrão de exaustão que não aparece naquele recorte específico de tempo. Dr. Éverton da Costa Sagiorato cita mudança de tom em mensagens escritas, atraso recorrente em entregas antes cumpridas no prazo, e redução de participação espontânea em reuniões como sinais indiretos que exigem atenção mais deliberada em ambiente remoto do que seriam necessários presencialmente.

O que empresas com modelo remoto ou híbrido precisam incorporar à gestão de riscos?

Para o médico do trabalho, incluir isolamento social e desconexão como fatores específicos de avaliação, dentro do programa de gerenciamento de riscos, é o ajuste necessário para empresas com força de trabalho remota ou híbrida. “Isso pode envolver check-ins regulares que vão além de pauta operacional, criação intencional de momentos de interação não estritamente profissional, e política clara sobre expectativa de disponibilidade fora do horário de trabalho, para reduzir a sensação de que o expediente nunca termina de fato”, pondera Dr. Éverton da Costa Sagiorato.

Um risco que exige metodologia própria, não adaptação superficial do modelo presencial

Tratar risco psicossocial de trabalho remoto como uma simples adaptação do que já se fazia no escritório costuma gerar avaliação incompleta, segundo Dr. Éverton da Costa Sagiorato. O modelo remoto tem dinâmica própria de desgaste, e empresas que já incorporam isso à gestão de saúde ocupacional, em vez de tratar o tema como uma extensão genérica do que já era feito presencialmente, conseguem identificar problemas específicos desse formato de trabalho antes que evoluam para adoecimento mais grave.

 

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