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Powershoring pode atrair empresas para o Brasil: o que a política de energia limpa muda no ambiente de negócios

Estudo aponta vantagem brasileira para receber indústrias intensivas em energia, mas investimentos dependem de infraestrutura, produtividade e políticas públicas.

O Brasil pode transformar sua oferta de energia renovável em uma vantagem competitiva para atrair novas empresas e investimentos industriais. A possibilidade ganhou destaque nesta quinta-feira, 3 de setembro de 2026, após um estudo conduzido pelo economista Luiz Awazu Pereira da Silva, com apoio do Centre for Economic Transition Expertise da London School of Economics e do Instituto Clima e Sociedade, apontar o chamado powershoring como uma oportunidade para o país. O conceito descreve a transferência de atividades industriais intensivas em energia para regiões onde existe oferta abundante, competitiva e de baixo carbono.

Para empresários e gestores, a discussão vai além da sustentabilidade. A localização de fábricas pode ser influenciada cada vez mais pelo preço, pela segurança e pela origem da energia utilizada na produção, principalmente em setores que precisam reduzir emissões para atender clientes e mercados internacionais. A questão central, portanto, é saber se o Brasil conseguirá transformar sua vantagem energética em investimentos, empregos, fornecedores e novos negócios.

Por que o powershoring pode mudar a disputa por investimentos industriais

O powershoring parte de uma mudança importante na economia mundial: energia limpa deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a fazer parte das decisões de competitividade. Empresas que consomem grandes volumes de eletricidade podem procurar países capazes de oferecer energia renovável em escala, com previsibilidade e custos competitivos. O Brasil possui uma combinação relevante de hidrelétricas, parques eólicos e solares, além de recursos naturais e minerais estratégicos que podem complementar uma estratégia de industrialização de baixo carbono.

Isso significa que uma indústria estrangeira interessada em produzir aço, produtos químicos, equipamentos, componentes tecnológicos ou outros bens eletrointensivos pode avaliar não apenas incentivos fiscais e tamanho do mercado consumidor. A disponibilidade de energia renovável pode entrar diretamente na equação de localização de uma fábrica, especialmente quando grandes compradores internacionais exigem cadeias produtivas com menor intensidade de carbono. Para o Brasil, a oportunidade está em vender não somente eletricidade limpa, mas produtos industrializados produzidos com essa vantagem energética.

O Nordeste aparece como uma das regiões com maior potencial dentro dessa estratégia. Estudos e iniciativas dedicadas ao powershoring destacam a combinação de recursos eólicos e solares, infraestrutura portuária, integração ao sistema elétrico e disponibilidade territorial como fatores capazes de atrair indústrias intensivas em energia. O Fórum Powershoring, que reúne organizações como Consórcio Nordeste, Banco do Brasil, Instituto Clima e Sociedade, ABDI e Banco do Nordeste, defende que a vantagem energética precisa ser acompanhada por infraestrutura, capital humano e coordenação institucional.

O que empresas precisam avaliar antes de apostar nessa tendência

Para uma empresa brasileira, o powershoring não significa simplesmente procurar um local onde a eletricidade seja barata. Uma decisão de investimento industrial envolve disponibilidade de energia durante todo o ano, conexão à rede, logística, acesso a portos e rodovias, mão de obra qualificada, fornecedores, água, segurança jurídica e capacidade de expansão. Uma fábrica pode ter acesso a energia renovável abundante e ainda perder competitividade se o transporte de insumos e produtos for caro ou se faltar infraestrutura para ampliar a operação.

Esse ponto é especialmente importante porque o próprio estudo divulgado nesta semana alerta para o risco de o Brasil repetir uma lógica baseada apenas na exportação de recursos naturais. A vantagem energética precisa ser convertida em produtividade, inovação e agregação de valor dentro do território nacional. Em outras palavras, não basta exportar eletricidade indiretamente na forma de commodities; o objetivo estratégico seria utilizar energia limpa para produzir bens de maior valor agregado e integrar empresas brasileiras às cadeias globais.

Para gestores de empresas já instaladas no país, a tendência também pode criar oportunidades fora da indústria pesada. A chegada de novos projetos industriais aumenta a demanda por transportadoras, empresas de manutenção, tecnologia, engenharia, construção, serviços especializados, softwares de gestão e fornecedores de equipamentos. Pequenas e médias empresas próximas aos polos de investimento podem participar dessas cadeias, desde que tenham capacidade financeira, certificações, qualidade operacional e condições de atender padrões exigidos por grandes companhias.

É justamente nessa etapa que políticas públicas podem fazer diferença. Um projeto industrial de grande porte costuma depender de licenciamento, infraestrutura, conexão elétrica, formação profissional e regras tributárias previsíveis. A experiência brasileira mostra que incentivos isolados nem sempre são suficientes para gerar desenvolvimento duradouro; para que o investimento permaneça no território, é necessário criar um ambiente empresarial capaz de formar fornecedores e estimular inovação.

Qual deve ser o papel do governo para transformar energia limpa em negócios

A discussão sobre powershoring coloca uma questão política relevante: qual deve ser o papel do Estado na atração de investimentos privados? O estudo divulgado em 3 de setembro defende que o setor privado deverá ser o principal responsável pelos investimentos, diante das limitações fiscais brasileiras, enquanto políticas públicas podem ajudar a criar as condições necessárias para que esses aportes aconteçam. Entre as possibilidades está o direcionamento de políticas industriais, infraestrutura e mecanismos de financiamento para atividades capazes de gerar maior valor agregado.

O desafio é evitar que uma política de atração de empresas se transforme apenas em uma disputa por incentivos. Para ser sustentável, o investimento precisa gerar benefícios econômicos mais amplos, como empregos qualificados, compras de fornecedores nacionais, desenvolvimento tecnológico, arrecadação e novas cadeias produtivas. O plano estratégico para o Nordeste elaborado com apoio do Instituto Clima e Sociedade ressalta justamente que os benefícios do powershoring não são automáticos e dependem de governança, integração entre energia e indústria e formação de capital humano.

Para empresas brasileiras, isso abre uma agenda estratégica que pode começar antes mesmo da instalação de novas fábricas. Companhias de tecnologia podem desenvolver soluções para eficiência energética e monitoramento de emissões; empresas de serviços podem se preparar para atender cadeias industriais; construtoras podem acompanhar novos projetos de infraestrutura; e fornecedores podem buscar certificações e padrões de qualidade exigidos por grandes compradores. A transição energética, nesse cenário, não é apenas uma pauta ambiental, mas também uma possível fonte de demanda empresarial.

O setor público, por sua vez, precisa dar previsibilidade aos investimentos. Empresas que planejam construir fábricas ou ampliar operações precisam saber quanto custará a energia, quais regras serão aplicadas, como funcionará o licenciamento e quais condições de infraestrutura estarão disponíveis. Quanto maior a estabilidade dessas variáveis, menor tende a ser o risco associado ao investimento de longo prazo.

O powershoring pode representar uma das oportunidades mais interessantes para o ambiente de negócios brasileiro nos próximos anos, mas não é uma solução automática. A energia renovável oferece uma vantagem inicial, porém transformar essa vantagem em crescimento empresarial exige infraestrutura, mão de obra, tecnologia, logística, segurança jurídica e políticas públicas coordenadas. Para os gestores, a mensagem é clara: empresas que acompanham a nova geografia da produção podem encontrar mercados antes pouco explorados e participar de cadeias industriais que estão sendo redesenhadas pela transição energética.

O Brasil tem recursos capazes de atrair investimentos, mas precisará demonstrar que consegue transformar energia limpa em produtividade e valor agregado. Se isso acontecer, grandes indústrias poderão encontrar no país uma plataforma competitiva de produção de baixo carbono, enquanto pequenas e médias empresas poderão ocupar espaços como fornecedoras de produtos e serviços. A disputa por investimentos, portanto, pode passar cada vez menos apenas pelo tamanho do mercado brasileiro e cada vez mais pela capacidade de combinar energia, tecnologia, infraestrutura e eficiência empresarial.

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